Cê tá pensando que eu sou Loki?
03/07/2009 às 19:31:10
O sucesso é algo aterrador, transforma anônimos em celebridades, medíocres em ‘sábios’, pessoas em deuses! Porém quanto mais alto ele levanta, maior pode ser a queda depois. Fato um.
O Brasil é um país de memória curta, aqui esquecemos rapidamente os absurdos cometidos por autoridades, políticos, que logo voltam ao poder após verdadeiros escândalos. Também esquecemos as tragédias, da mesma forma que os sucessos e qualidades. Fato dois.
As substâncias entorpecentes foram parte intrínseca da revolução cultural nos anos 60, principalmente no Rock’n’Roll, onde deu asas à criatividade já latente de verdadeiros gênios da época. Porém como qualquer tipo de droga, possuem efeitos colaterais perigosos e cobram um alto preço pelas sensações que proporcionam. Fato três.
Assistindo ao documentário Loki – Arnaldo Baptista, estes três fatos batem forte em nossa cara. Arnaldo e os Mutantes foram sem dúvida a banda mais criativa e importante da história do Rock no Brasil, uma das mais importantes em toda música brasileira, não apenas no Rock. Como parte do histórico movimento Tropicalista, acrescentaram novos elementos à nossa música. Antes deles nosso Rock era inocente, praticamente versões de músicas estrangeiras, os Mutantes misturaram psicodelia com diversos tipos de instrumentos, ritmos, orquestrações, colagens, experimentalismos, criando uma música original, sem igual para a época. Nesta época os Mutantes eram felizes, e Arnaldo amava Rita. Muito...
O sucesso do grupo era questão de tempo, e foi grande, ultrapassou fronteiras. Neste cenário as drogas eram parte fundamental e os Mutantes usavam e abusavam delas. Porém elas começaram a cobrar seu preço, e o outrora alegre e espontâneo Arnaldo Baptista foi se tornando uma pessoa distante, soturna... Esta mudança de comportamento, a loucura dos shows, viagens, complicaram os problemas de relacionamentos tão comuns em qualquer banda, até que Rita Lee deixou o grupo e por conseqüência Arnaldo... Mas Arnaldo ainda amava Rita... Logo ele também deixou os Mutantes, que seguiram com Serginho Baptista a frente, cada vez mais progressivos, virtuosos, porém menos interessantes...
Com o fim do sucesso , e do relacionamento com Rita, Arnaldo conheceu o inferno, sua carreira solo estava longe de repetir a glória de antes, e pior, a imprensa que antes incensava o ídolo, passou a depreciá-lo. Arnaldo perdido, mentalmente abalado foi internado, sofreu um acidente caindo de uma janela (há quem diga que foi tentativa de suicídio...) e entrou em coma...
Ninguém diria que um dia Arnaldo voltaria a frente dos holofotes. Durante muitos anos ele esteve em seu mundo, gravou novos trabalhos, pintou quadros, passou por tratamentos, e enquanto o Brasil ignorava aquele que é um de seus maiores gênios musicais, o mundo descobria Arnaldo e os Mutantes!

Coube ao filho de John Lennon, Sean, a honra de resgatar o orgulho de Arnaldo ao chamá-lo para dividir o palco em seu show por aqui, além de reverenciá-lo pessoalmente. O filho de um dos maiores gênios da música em todos os tempos declarou que Arnaldo e os Mutantes eram melhores que seu pai e os Beatles!
Depois dele foi a vez de Kurt Cobain, sim aquele que muitos lembram como um ícone de música barulhenta e rebeldia adolescente, quando veio ao Brasil em 92, querer conhecer o grupo, de quem era grande fã. Escreveu uma carta de próprio punho e deixou mensagens gravadas para Arnaldo.
Foi preciso que o mundo descobrisse a genialidade dos Mutantes para que por aqui começasse a surgir interesse pela obra do grupo. Após a turnê de reunião ocorrida em 2006 e o sucesso estrondoso das apresentações na Inglaterra, enfim a Arnaldo teve um pouco do reconhecimento que merece. A realização e o sucesso do documentário Loki vieram para pertetuar a obra deste fantástico músico, compositor, que se nascido e vivido na Inglaterra, ou nos EUA, certamente seria um dos maiores nomes do Rock em todos os tempos!
Muito do que falei aqui e muito mais pode ser visto no documentário, raríssimas imagens de arquivo, entrevistas da época, amigos, parceiros e fãs ilustres falam de Arnaldo e do grupo. Alguns mitos são desvendados e outros continuam nebulosos. O fato de Rita não ter aceitado dar sequer um depoimento ao documentário nos deixa a impressão de que muita mágoa restou, mesmo passadas mais de três décadas. Ela sempre fez questão de dizer que não saiu dos Mutantes, mas teria sido expulsa pelos irmãos, pois não teria capacidade técnica para acompanhar o novo rumo musical que pretendiam seguir. Já no filme a opinião unânime é de que ela saiu por vontade própria, devido ao desgaste do relacionamento com Arnaldo. A verdade é que ao final do filme a imagem de boa gente de titia Rita Lee não fica assim tão gloriosa, uma vez que ela seguiu em frente com muito sucesso em sua carreira, dando as costas ao velho companheiro esquecido. Se isto não é verdade, ela deveria ter se manifestado, pois é esta a impressão que tivemos.
Enfim, para quem é fã o filme emociona, mas o melhor, em minha opinião, é ter a sensação de que Arnaldo está em paz, feliz com o reconhecimento, ainda que tardio.
Não viu ainda o filme? Então corra, porque logo deve sair de cartaz...


17/08/2009 às 12:36:09



