E a Virada virou...
04/05/2009 às 21:31:20Um caos. Pelo menos foi o que se viu no palco Rock no sábado à noite, início da madrugada de domingo.
É verdade que a Virada é um sucesso e mais uma vez bateu recorde de público sem grandes incidentes ou problemas de organização, apesar da infra estrutura ainda ser falha em alguns aspectos.
Porém o que era um evento alternativo, com apresentações diferentes e público descolado, agora virou festa popular, diversão para as massas. Assim assistir a qualquer atração principal em um dos palcos grandes virou missão impossível, afinal muita gente está ali sem nem saber o que tá acontecendo ou quem são aqueles caras que estão cantando.
A praça da República já não sustenta o público do Rock. O espaço em frente ao palco, sem obstáculos, logo fica lotado e as pessoas vão se espalhando por cima dos jardins, entre as árvores e se espremem para andar em meio às estreitas vielas que cortam os jardins. Sem contar que uma obra do metrô ocupa boa parte do exíguo espaço disponível para a circulação. No ano passado a coisa já beirava o insuportável, mas este ano passou de todos os limites, após o show do grupo Camisa de Vênus, já por volta das 02h da manhã, a aglomeração era tanta que não dava para se mexer, sem falar no empurra-empurra interminável. E eu não estou falando de quem estava perto do palco, não. A coisa era assim até o fundo e nas laterais, e sobre os jardins, e nos caminhos em volta... Era tanto aperto que qualquer briga ali no meio poderia resultar em tragédia, por sorte o público estava comportado, apesar de sempre ter uns otários que bebem além da conta e incomodam os demais, além daqueles que desconhecem o princípio básico da Física, de que dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço!
Diante desta situação explosiva decidi me retirar, tarefa hercúlea, uma vez que o trânsito em torno da praça estava liberado e os carros se misturaram em meio à multidão, tornando-se assim enormes obstáculos imóveis a serem vencidos por quem era arrastado pela turba ensandecida... Ou seja, já passou da hora de a organização arrumar um espaço mais amplo que comporte tanta gente.
Também achei um erro o palco do Raul estar tão longe, uma vez que era destinado ao mesmo público, se estivesse mais perto os fãs iriam circular de um para outro, diminuindo assim a concentração em um só local. Os dois palcos poderiam ter as programações intercaladas, para que fosse possível acompanhar melhor os shows.
E já que estou falando dos pontos negativos, mais uma vez o problema dos banheiros se fez sentir, afinal o cheiro nos locais e dentro das cabines era terrível. Mesmo com o aumento expressivo da quantidade de cabines, ainda assim ficou muito aquém do necessário. O que também faltou novamente foram mais lixeiras, pois mesmo com boa vontade de não jogar lixo no chão, apesar de já estar forrado dele, não era possível encontrar local apropriado. Ok, eu sei que existem os estúpidos que destroem as lixeiras, então a solução talvez seja espalhar caçambas de aço e lixeiras de concreto. Fato é que se tem onde jogar, boa parte das pessoas usam, evitando assim as cenas lamentáveis que se via no domingo, e hoje, segunda-feira, onde alguns locais parecem ter passado por uma guerra.
Seria interessante, ainda que pouco prático, cercar as praças e jardins, pois é triste ver o estado em que estes locais ficam quando localizados próximos aos palcos. Adianta fazer uma grande festa e depois o resto do ano ver as praças sem plantas, destruídas? Ou a prefeitura vai gastar uma fortuna para refazer tudo? Então não adiantou nada economizar no orçamento da festa, porque o gasto vai vir de qualquer jeito...
E os shows?
Ah sim, cheguei cedo para ver o Jon Lord com a Orquestra Municipal e teria sido ótimo, não fosse o local/público inadequado para este tipo de som. Afinal por se tratar de um verdadeiro concerto erudito, as partes baixas ficavam inaudíveis onde eu consegui chegar sem empurrar os outros, como muitos fazem. Eu posso até ser um Rocker meio grosseiro e etc, mas tenho educação... Aliás, por falar nisto, se estas mesmas pessoas calassem a boca durante as músicas, teria sido interessante. Mas tem gente que vai para show para encontrar os amigos, então eles fazem uma rodinha, ficam fumando sem parar (as vezes é cigarro...), bebendo (qualquer porcaria desde que tenha álcool), e falando qualquer bobagem. Muitos sequer olham em direção ao palco... Ah, e teve os problemas técnicos também, imperdoáveis para uma apresentação como esta. A impressão que dava é que tinha algum cabo com mau contato, fazendo aqueles típicos ruídos horrorosos nas caixas... A apresentação foi ótima, claro, além da obra de 1969, tocaram outros três clássicos do Purple.
Da São João fui então ao palco Rock onde estava começando o Tutti-Frutti, o genial Luis Carlini e família apresentaram o clássico álbum Fruto Proibido, além de mais alguns sucessos da época da Rita Lee. Em um país com mais respeito a sua própria cultura, Carlini seria reverenciado, assim como outros grandes músicos do nosso Rock nos anos 60 e 70.
Isto vale também para Manito e seus companheiros de O Som Nosso de Cada Dia que brindaram a platéia com um progressivo de primeira linha, provando que não só Yes, Pink Floyd, Genesis e outros gringos podem ser chamados de gênios. Temos os nossos por aqui também, embora sejam ignorados por mídia e público. O descaso com a importância dos caras é tanto que várias matérias em jornais que citaram as principais atrações do Rock na Virada ignoraram completamente a banda, além de que o apresentador oficial do palco errou (!!!) o nome do grupo, mandou um patético ‘Pão Nosso’... Até quando vão insistir em colocar gente que não entende para apresentar os shows, hein? E o DJ que nunca acerta nas músicas e consegue irritar o público? É incrível, pode ser show pago, grátis, tanto faz, o cara do som tá sempre perdido. Quando não fazem uma seleção qualquer de ‘hits’ batidos e deixam rolando... Será que é pedir muito chamar alguém que faça um trabalho decente? Se precisar eu sei quem faz...
Na sequência o Joelho de Porco surpreendeu pela grande receptividade, muita gente sabia as letras e mesmo os mais jovens gostaram da pegada Rock’n’Roll das músicas e irreverência dos músicos.
Já o Camisa de Vênus optou por um show somente de grandes sucessos e arrebatou a multidão, que cantava cada refrão a plenos pulmões. Para mim foi um show monótono, depois de 20 anos acompanhando a banda não agüento mais matar a Beth, chamar a Silvia de piranha e coisas do gênero. Prefiro as letras mais inteligentes, tanto da banda, quanto solo do Marceleza. Acho que a formação em palco, com o Ivan Busic (batera do Dr. Sin) e o do já citado Carlini (guitarra, que já gravou um disco e excursionou com o Camisa), deve ter forçado a opção por este repertório mais manjado, devido à falta de ensaios. O show me pareceu muito improvisado, além de a qualidade técnica não estar boa, em alguns momentos mal se ouvia a voz.
Depois desta fui p’ra casa dormir, o aperto estava demais! Voltei no domingo à tarde e antes de voltar à República passei novamente na São João e lá estavam os Novos Baianos. Mesmo quem não é lá muito fã como eu, acaba se encantando com os solos de Pepeu Gomes. Para quem não sabe ele já foi destaque na conceituada Guitar Player americana e citado entre os melhores guitarristas do mundo!
Já no clima meio paz e amor, graças às palavras da figuraça Baby do Brasil, fui ver o Sitar Hendrix no palco Rock. O lugar estava vazio e parecendo ter sido bombardeado, tal a quantidade de entulhos espalhado por todos os lados, porém o clima era da mais pura viagem musical. Alberto Marsicano sentado no meio do palco tirou de sua cítara clássicos de Hendrix (incluindo a ‘inédita’ Cherokee Mist) a Black Sabbath, passando por Led, Cream e até Raul, acompanhado apenas de baixo e bateria. Para mim um dos melhores momentos de toda a Virada, poderia ter durado umas três horas, hehehe...
E p’ra fechar bem, fui para o palco Toca Raul, na Luz, ver Marcelo Nova acompanhado de Os Panteras, a banda original de Raulzito. Mais um show improvisado, porém com a emoção da lembrança e homenagem ao maior Rocker que este país já viu, Raul dos Santos Seixas! Valeu também a homenagem aos próprios membros da banda, afinal vale aqui novamente o que disse antes, em um país com mais memória, estes caras teriam outro valor! Neste aspecto a Virada tá de parabéns por resgatar a cada ano grandes figuras da nossa música, não apenas do Rock, revisitando grandes discos, relembrando momentos históricos da nossa cultura musical.
Enfim, terminada mais uma Virada acredito que o balanço é positivo e os acertos maiores que os erros. Mas é válido rever alguns pontos para melhorar. Acredito que enxugar um pouco o número de atrações, sincronizar e aproximar eventos afins, e separar os muito distintos para que não haja grandes aglomerações em um só lugar, como acontece no centro, seria um bom começo. Em matéria de estrutura também seria bom ter mais telões, pois com o mar de gente que se forma é impossível ver qualquer coisa nos palcos, sendo que a maioria nem telão tinha.
Um melhor entendimento entre os poderes públicos também facilitaria, fechar a estação República foi estupidez, o metrô seguindo somente até a estação Anhangabaú e desaguando milhares de pessoas ali transformou o lugar em um pandemônio. Grande bola fora. Assim como fazer o evento coincidindo com a final do campeonato paulista...
Tapando o Sol com a peneira
Um detalhe extra, a Virada traz milhares de pessoas ao centro e nos dá oportunidade de observar melhor esta importante região da cidade, principalmente por suas características arquitetônicas. Mas também escancara de vez os problemas sociais na região. P’ra mim não é novidade a quantidade assustadora de menores de idade que se aglomeram à noite nas calçadas das escuras e desertas ruas no quadrado formado pelas avenidas Ipiranga, São João, Duque de Caxias e Rio Branco. Passar ali após as 18h é assustador e arriscado. Esta região concentra o comércio de produtos para motociclistas e por diversas vezes vi ali assaltos em plena luz do dia, imagine o que ocorre à noite. Fato triste e lamentável é ver dezenas de jovens e adultos em estado de miséria, degredados, cheirando cola, fumando crack, enrolados em cobertores, jogados nas calçadas. Isto por si só já é muito espantoso, além de triste, o descaso do poder público para com uma parcela da população esquecida e entregue à própria desgraça.
Porém na madrugada deste domingo a situação era vexatória, pois além da população de rua costumeira, muitos freqüentadores da Virada se juntaram a eles para comprar e consumir drogas abertamente. Isto eu vi pessoalmente nas esquinas das ruas Guaianases e Aurora, a duas quadras de onde milhares esperavam para ver o próximo show no palco da São João.
O que me leva a refletir, até que ponto vale a pena fazer uma festa tão grande, mostrar o quão rica é nossa cidade a ponto de promover tamanho espetáculo, levar diversão gratuita a milhões de pessoas, mas deixar alguns poucos esquecidos, vivendo como ratos em um bueiro... Será que estes 5 milhões de reais empregados na Virada não poderiam fazer uma verdadeira ‘virada cultural’ na vida destas pessoas?
Dá o que pensar! Nem só de pão vive o Homem, nem só de circo também... Eu preferia que todos pudessem aproveitar a festa igualmente, ou ninguém...




