
A frase acima tem quase 50 anos. Para os que se espantam com ela hoje em dia, saibam que obviamente não fui eu quem inventou, é uma das histórias mais conhecidas do Rock.
Meados da década de 60, na efervescente Inglaterra de então milhares de jovens sonhavam em ter suas próprias bandas e se tornarem um novo fenômeno, tal como The Beatles e Rolling Stones, que eram a bola da vez. Assim como as duas bandas citadas, a maior parte dos músicos de Rock da época começou tocando Blues, imitando os ídolos americanos. Foi assim também com os Yardbirds, grupo surgido em 1963 e que revelaria ao mundo Eric Clapton. Dois anos depois o jovem guitarrista partia para os Bluesbreakers, do pioneiro do Blues inglês John Mayall. Empolgados com o sucesso dos primeiros, os Yardbirds seguiam pelo mesmo caminho Pop, o que não agradou Clapton, ele queria tocar Blues. E foi na banda de Mayall que Eric encontrou espaço para impressionar ao vivo. Sua capacidade como guitarrista já era tal que ainda em 1965 surgiram pixações pelos muros de Londres, "Clapton is God"...

Agora, se você tem dificuldade para aceitar isto por questões religiosas, tente enxergar pela ótica mitológica, deus no sentido de possuir capacidade sobrehumana, não como um ser único, criador, onipresente, onisciente. É outro conceito...
A partir de então, Eric deu asas a seus poderes divinos e criou obras primas, resolveu ter sua própria banda, seguiu em frente e criou nada menos que a "nata" do Rock, o Cream, em 1966. Depois vieram grandes parcerias e colaborações, Blind Faith, John Lennon and the Plastic Ono Band, Delanye & Bonnie & Friends, Derek and the Dominos, e a vitoriosa carreira solo a partir do início da década de 70.
Com um currículo tão excepcional, invejável, Clapton passeia com desenvoltura pelos mais diversos estilos, seja Rock, Country, Jazz ou Blues, que sempre foi seu porto seguro, e assim tem feito ao longo de quase 50 anos de carreira. O que nós vimos no Morumbi no último dia 12 foi um resumo tímido desta carreira, porém impecável. Diante de 45 mil pessoas, o senhor Eric Clapton, aos 66 anos, mostrou o que toda esta experiência lhe trouxe, serenidade, segurança, perfeição.
Como fã de Fórmula 1, como qualquer bom inglês, Clapton iniciou o show dedicando o espetáculo ao piloto brasileiro Felipe Massa, de quem é amigo. Ouvi reclamações de que o show foi morno, que o músico mal falou com a platéia. Mas o que esperavam? Que ele entrasse com a bandeira do Brasil nas costas, chamasse uma garota do público para beijar e dissesse "Oulá tchudo bien con vochêis? Senhores, estamos falando de Eric Clapton, uma entidade musical, um dos músicos mais influentes de todos os tempos, condecorado pela rainha da Inglaterra como Comandante do Império Britânico. Um homem distinto, discreto, simples, cujo "Thank You" com sotaque britânico é uma marca registrada por si só, muito melhor que qualquer tentava simpática de dizer "Oubrigadou".
E Clapton foi comedido como tem sido há muito tempo, entrou no palco caminhando naturalmente junto com a banda, saudou rapidamente a platéia ao microfone, fazendo a referência a Massa (quer maior manifestação de carinho que dedicar o show a um ídolo do esporte brasileiro? Ou precisava ser ao "Rounaldginhu" pra ser simpático?) e colocou seus mágicos dedos em ação. De cara três números clássicos de Blues, Key to the Highway, Tell the Truth e Hoochie Coochie Man, de Willie Dixon, talvez a mais executada música do estilo em todos os tempos. Porém, a emoção tomou conta mesmo do estádio em Old Love, em uma longa e inspirada versão, arrancando suspiros apaixonados das senhoras e senhoritas presentes. É chover no molhado, mas a exatidão em cada nota de cada solo, assim como a pureza do som da guitarra de Clapton é algo singular. Mas justiça seja feita, muito do espetáculo se deve também a banda de apoio, a qual Eric cede generosamente espaço para que apareça. E eles aparecem bem, com destaque para o tecladista Tim Carmon que deu um show a parte, com solos de tirar o fôlego e efeitos de cair o queixo. Na realidade a banda tem dois tecladistas, ao invés de duas guitarras como no passado, porém o efeito que muitas vezes Carmon usa simula tão bem um solo de guitarra que de olhos fechados ficaria difícil distinguir, é realmente impressionante. Destaque ainda para as backing vocals, que também deram seu show. O restante da banda é mais econômico, solos curtos, pouca firula. Vale citar ainda a bela iluminação do palco, simples, porém muito eficiente, criando um clima mais intimista mesmo em um espaço gigantesco, com as cores refletindo nos panos pendurados ao fundo.
Entre os números mais famosos, Lay Down Sally voltou a levantar o público, assim como Layla em uma versão acústica, linda, porém curta e sem o peso do riff tão marcante. Na sequência, a que para mim foi o grande momento do show, Badge, grande clássico do Cream. Não apenas porque esta sempre foi minha preferida no repertório de Mr. Slowhand, mas porque ele realmente deu um toque especial nela, o momento mais pesado do show, mais intenso, onde as luzes do palco ajudaram a aumentar o clima durante duas paradas enquanto o som reverberava e crescia, para que então alcançasse o climax com o clássico fraseado da guitarra. A emoção tomou conta geral outra vez logo a seguir com a introdução de Wonderful Tonight, que foi cantada em uníssono pela plateia “...and I say yes, I feel wonderful tonight”, traduzindo perfeitamente o sentimento de todos. Before You Acusse Me, o clássico Blues de Bo Diddley fechou esta trinca sensacional. Antes do fim ainda teve Cocaine, mais um ponto alto na apresentação que foi encerrada definitivamente após o “bis” com Crossroads, o histórico Blues de Robert Johnson. Para este número Clapton convidou ao palco Gary Clark Jr., o excelente guitarrista texano que fez o show de abertura.
Aliás, o show de abertura foi excelente, Gary, de apenas 27 anos, tem fortes raízes no Blues tradicional, além de pegada e sonoridades que em alguns momentos tem um “quê” de Hendrix. É considerado uma das grandes revelações do Blues atual, e um dos responsáveis por um novo revival do estilo, assim como Clapton fez nos anos 60. Em sua ótima apresentação executou músicas próprias e clássicos como Catfish Blues, a música cujas origens remontam a década de 20 e em 1950 foi transformada por Muddy Waters em Rollin’ Stone, aquela que daria origem ao próprio Rock’n’Roll.

Enfim, uma noite memorável para ficar guardada nos corações e mentes de 45 mil sortudos que lá puderam estar presentes para ver e o ouvir o deus da guitarra.
Setlist
Key to the highway
Tell the truth
Hoochie coochie man
Old Love
Tearing Us Apart
Driftin`
Nobody Knows When You`re Down and Out
Lay Down Sally
When Somebody Thinks You Are Wonderful
Layla
Badge
Wonderful Tonight
Before You Accuse Me
Little Queen of Spades
Cocaine
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Crossroads
Me adiciona ai, vamos trocar uma ideia diária sobre Rock e afins
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